“Nós, veterinários, deveríamos nos posicionar: parem de comprar pugs!”

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Não sou radical da linha “adote, não compre”. Embora pessoalmente sempre tenha adotado, respeito quem, em busca de certas características, compra um animal de raça. Admito que um golden brincalhão é uma coisa gostosa demais.

Mas nós veterinários temos uma responsabilidade com os animais. Nós precisamos urgentemente falar sobre os pugs.

Os proprietários precisam saber que algumas raças estão fadadas a várias doenças crônicas e a uma vida de sofrimento. Ao comprar animais dessas raças, eles estão estimulando que mais e mais filhotes venham ao mundo e tenham problemas de saúde.

Cachorros de focinho achatado (braquicefálicos), como os pugs, mas também o buldogue francês, o boxer e shin-tzu, podem ser uma graça.

Mas tenha em mente que eles só ficaram assim porque foram selecionados pelos criadores para terem focinhos cada vez mais curtos e menores, ao longo de décadas.

Isso tem uma série de efeitos colaterais danosos: é difícil para o bicho respirar e comer.

O que causa consequências como:

– Estresse cardiovascular;
– Superaquecimento do corpo (hipertermia);
– Ganho de peso –o bicho, ofegante, tem dificuldade para fazer exercícios.

Além disso, o formato e o posicionamento pouco usual da boca e dos olhos fazem com que eles também vivam tendo problemas dentários e oculares.

Ou seja, de forma a deixar os bichos com essa carinha fofa, décadas de seleção artificial, por meio da reprodução controlada, tornaram esses cachorros uma aberração anatômica. Daria para ficar muito tempo citando outros problemas que esses animais têm, como problemas dermatológicos em suas dobras excessivas e dificuldades para dar à luz naturalmente.

Eu sei que é difícil ser sincero com os proprietários.

Ainda mais porque, quando o assunto surge, é quase sempre porque eles já têm um pug ou um animal de outra raça dessas que citei… Vai o veterinário ficar dando lição de moral dizendo o quanto aquelas pessoas, que muitas vezes amam seu animal e fariam tudo por ele, são na verdade seres irresponsáveis que estão espalhando sofrimento?

Em primeiro lugar, você corre o risco de apenas causar mais dor –imagine uma criança apaixonada pelo bichinho que ouve do veterinário que o Tobby vai inevitavelmente viver de doença em doença?

Além disso, sejamos honestos, os clientes provavelmente trocariam de veterinário, procurando alguém menos sincero, que aliviasse a situação.

É por isso que informar a sociedade sobre como a vida de determinados cães tende a ser dolorosa deve ser um esforço de todos os veterinários, de forma coordenada, e não de alguns indivíduos isoladamente.

Isso já acontece na Europa, onde a Associação dos Veterinários do Reino Unido defende abertamente que as pessoas não comprem raças de focinho achatado.

Não dá para ser mais direto do que isto: “Futuros donos de cachorros deveriam considerar que perpetuam problemas de saúde ao comprar animais de raças braquicefálicas e, desse modo, deveriam escolher raças mais saudáveis ou animais miscigenados. Veterinários, por sua vez, devem aconselhar seus clientes sobre isso. Esses animais não deveriam ser vistos como fofos ou desejáveis, mas como predispostos a uma vida inteira de saúde problemática.”

Lembro da primeira vez, na faculdade, que vi um raio-x da cabeça de um pug. Inocentemente, eu achei que o animal tinha sofrido algum acidente grave. Com o tempo, a gente se acostuma. Não deveríamos. Precisamos urgentemente fazer esse debate aqui no Brasil também.

FONTE: canaldoveterinario.com.br