Zoocárceres

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Zoocárceres [Dr. phil. Sônia T. Felipe]


Há quem esteja em dúvida sobre abolir os zoos, por conta de existirem alguns que recebem animais violentados pelos circos e espetáculos afins. Vamos distinguir os conceitos para não perpetuar erros morais tradicionais. Se há um espaço no qual se dá cuidado e proteção a animais violentados por circos e outros espetáculos, jamais este espaço deveria ser denominado zoológico, pois jamais deveria manter os animais encarcerados para serem “olhados” pela curiosidade humana.

Os zoológicos foram criados na era vitoriana nas grandes cidades da Europa. A razão para esta ideia ter germinado, era que somente quem podia viajar para a África, a Ásia e a América podia ver os animais exóticos em movimento, quem não viajava tinha que se contentar em olhar as pinturas (aliás, perfeitas), feitas pelos viajantes retratistas da flora e da fauna exóticas. Então criou-se o zoológico – espaços de estudo dos animais. Esqueceram que atrás de grades, em caixotes, atados a correntes, nenhum animal, humano ou não humano, mantém saudável a expressão de sua mente, sua alma, seu espírito. Para isso não basta comida e água.

A justificativa era ao mesmo tempo científica (permitir observar o comportamento de animais exóticos), educativa (levar as pessoas a se autoestimarem ao se verem diferentes e superiores aos animais aprisionados), e recreativa (produzirem diversão nas pessoas pelos comportamentos exóticos ou estereotipados dos prisioneiros).

Também fazia parte do propósito “lógico” dos “zoos” saciar a curiosidade humana sobre outros tipos de vida.
Para que todos esses propósitos fossem alcançados, foram construídos campos de concentração para várias espécies exóticas, colocadas na mesma área, ainda que, na natureza, jamais certas espécies vivam no mesmo ambiente de outras. Construíram-se jaulas para aprisionar os mais inconformados com sua condição de presidiários e edificaram com grades outros espaços para conter os demais, enquanto todos foram expostos aos olhares curiosos, aos comentários detratores de suas naturezas e ao escárnio.

Estes zoos nada mais são e foram do que zoocárceres. Lá estão, condenados à prisão perpétua, seres sencientes que jamais cometeram crime algum. Seres arrancados de suas florestas, de suas geleiras, de seus lagos, de suas pedras, jogados em cercados e expostos à curiosidade humana sem benefício algum para eles.

Vamos à questão de zoocárceres que acolhem animais detonados pelos circos e afins. De modo algum, se o animal fosse um humano violentado, nós aceitaríamos que ele fosse levado para uma vitrine de um shopping e colocado lá para que todos pudessem contemplar seu corpo e observar seu comportamento vazio, sua loucura, sua dor, seu desespero ou qualquer coisa do gênero. Nós protegeríamos esse animal humano de todos os olhares despreparados para amparar a dor sofrida e a lesão emocional ou as atrofias no corpo que a violência causa.

Nenhum animal deveria hoje ser mantido como objeto de visitação pública. Não admitimos que nossos entes queridos sejam visitados nos hospitais, clínicas de idosos ou similares, quando perdem sua autonomia física, emocional e mental. Em respeito à sua alma sofrida, nós os mantemos apenas na presença de pessoas que ali estão para lhe dar algum conforto, cuidado e alegria. Não é o caso dos zoocárceres.

Se os zoocárceres forem extintos, o que será dos veterinários e outros profissionais que ali hoje trabalham? Seus empregos não deixarão de existir. Eles continuarão a trabalhar para garantir o mínimo de dignidade aos animais internados. O que deixa de existir é o direito de nós, humanos, consumirmos com nosso olhar a dor desses animais, nosso direito de consumi-dores, de pagar uma taxa para ficar olhando, sem gosto algum e sem propósito, por puro vazio de não ter coisa mais interessante para fazer, seres sofrentes, dorentes, pacientes que deveriam estar bem protegidos de nossa loucura, de nossa frieza, de nossa indiferença por sua agonia. Sim. Saímos de um zoocárcere e nada fazemos para abolir esta instituição.

Todos os zoocárceres existentes hoje devem ser transformados em lugar de abrigo, proteção e tratamento de animais feridos por outras práticas institucionais que os mutilaram e atrofiaram seu espírito, ao mesmo tempo em que essas outras práticas devem ser abolidas, para que não tenhamos cada vez outros animais nas mesmas condições de tortura e aniquilamento existencial. 
Os zoos nunca foram “lógicos”. Se o fossem, os animais jamais teriam sido retirados de seus ambientes naturais específicos. Zoológicos só sempre foram zoocárceres, centros de tortura e atrofia existencial de inocentes presidiários, usados para distrair gente sem mais o que fazer em suas tardes de domingo. Que estes espaços carcerários sejam usados para cuidar dos animais e fechados à visitação pública, pelo estresse infinito que produzem na mente dos animais.

E que as áreas em volta dos zoocárceres sejam revitalizadas com programas que incluam zoos virtuais, nos quais todos possamos assistir filmes feitos ao vivo nos ambientes naturais de cada um dos animais encarcerados ali, para compreendermos finalmente o que roubamos deles. Filmes de girafas, de leões, de jacarés, de elefantes, de orangotangos, de chimpanzés, de ursos, de focas, de baleias, uma coleção de filmes feitos por etólogos, primatólogos, biólogos, que vivem há décadas nos ambientes com esses animais e sequer voltam às suas universidades e cidades, para não trazerem para “casa” os cheiros de produtos de higiene e limpeza usados na cidade, para não invadirem a privacidade olfativa e mental de nenhum desses animais.

Abolição dos zoocárceres. Criação de Zoos Virtuais. Fim da Era Vitoriana. Começo da Era Zoovirtual. Transformação dos atuais cárceres em santuários de proteção e cuidado das vidas. Fim da introdução de novos indivíduos nos cárceres existentes. Abolição da ideia de que manter animais aprisionados para satisfazer curiosidades triviais humanas seja algo digno de consideração moral. Estuda um animal quem se dispõe a viver com aquele animal em seu ambiente natural. Cuida de um animal doente ou atrofiado quem se dispõe a fazer isso como o faria em uma clínica para humanos. Abolição é a saída ética. Animastê!