Mobilização hedonista

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Um dos projetos desenvolvidos pela disciplina de Educação Física com as turmas da 1ª série do Ensino Médio intitula-se “Que jogo eu jogo?”. Neste projeto os estudantes buscam trazer para as aulas possibilidades de jogos, brincadeiras e práticas corporais diversas que realizam, já realizaram ou têm interesse em realizar com os colegas. Contudo, não basta pensar na atividade, cabe a eles pensar em como fazer com que essa atividade seja possível para o grupo e para o ambiente em que se propõe.

Neste contexto, os alunos da 1ª série A e C se propuseram a fazer paintball. Desde já veio o primeiro problema a ser solucionado: a tinta. Não podemos sujar todo o chão e as paredes da escola com tinta. “Mas isso é fácil, professor!!! Vamos fazer com água!”. Mas vamos ficar jogando toda essa água fora? “E se captarmos água da chuva para fazer a atividade?”. Sim, essa foi a solução encontrada pelos próprios estudantes. Passaram-se quase 20 dias de espera e quando a chuva caiu, o WhatsApp apitou: “Gente, põe o balde na chuva pra pegar água!”

No dia 31 de março, os alunos chegaram à escola carregando garrafas e mais garrafas com água da chuva. Armas de brinquedo soltaram o sorriso. Balões de água eram bombas e granadas de pura diversão. E uma simples garrafinha foi capaz de fazer chover a gargalhada e a descontração. O prazer eminente da brincadeira de molhar e ser molhado ficou estampado para todos que puderam ver ou viver essa aula. Mas nem tudo se encerra aí!

Após toda a farra veio a pergunta: "Por que vocês se mobilizaram para pegar a água da chuva?" Naquele momento não foi preciso muito para que os estudantes refletissem sobre tudo o que havia acontecido ali. Os olhares se cruzaram e a alegria efusiva deu lugar ao semblante de reflexão. Houve uma grande mobilização porque havia um interesse coletivo, ligado ao prazer e ao deleite dos brincantes. Mas será que nos mobilizamos com tanto afinco para outras questões? Quantas vezes esse mesmo grupo de alunos já havia recolhido água da chuva para outras atividades? Quantas vezes eles se preocuparam em armazenar água para lavar o passeio, ou para jogar nas plantas? Nesse contexto, vale a pena pensar o quanto estamos dispostos a nos mobilizar para fazer coisas que não nos dão prazer.

Tais questionamentos nos levaram a relacionar o hedonismo típico da sociedade contemporânea à capacidade de mobilização do ser humano para alcançar seus interesses. A reflexão não é taxativa, tampouco pretende inibir ou restringir as possibilidades que temos de brincar, interagir e reinventar nossos momentos de lazer. A busca do prazer não pode ser um problema a priori. O que discutimos aqui é o que nos mobiliza. E aí, sim, devemos nos preocupar quando tudo só se justifica na busca irrestrita do prazer. Dessa forma, continuemos discutindo: o que mobiliza o ser humano?