Half-Earth’: reservar metade da Terra para a natureza

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O Homo sapiens surgiu na África e, há cerca de 80 mil anos, começou a sua jornada no sentido de ocupar todos os continentes da superfície terrestre. Primeiro ocupou o Norte da África e o Oriente Médio (o chamado Crescente Fértil, que inclui a região que vai do delta do Nilo à Mesopotâmia), para, em seguida, ocupar todo o território contíguo da Eurásia (Europa + Ásia). Navegou e ocupou as ilhas do Pacífico até conquistar a Austrália e a Nova Zelândia. Depois atravessou o Estreito de Bering para alcançar o continente americano. Em ondas sucessivas, a humanidade foi ocupando todos os rincões do Planeta e, como uma espécie invasora egoísta, foi dominando, explorando e reconfigurando a paisagem e o modo de vida das demais espécies vivas da Terra.

Ao longo do tempo os humanos foram aprendendo a explorar a natureza em larga escala e passaram a utilizar a riqueza do Planeta em benefício próprio. A humanidade foi progredindo e o meio ambiente foi regredindo. Especialmente nos últimos 250 anos, o processo incessante de acumulação de riqueza levou ao extremo o modelo “Extrai-Produz-Descarta”, significando que para produzir bens e serviços, a economia arranca recursos da natureza e devolve lixo, resíduos sólidos e poluição.

A ONU estabeleceu o dia 05 de junho como data comemorativa do MEIO AMBIENTE. Entre os objetivos das comemorações estão: “a) Mostrar o lado humano das questões ambientais; b) Capacitar as pessoas a se tornarem agentes ativos do desenvolvimento sustentável; c) Promover a compreensão de que é fundamental que comunidades e indivíduos mudem atitudes em relação ao uso dos recursos e das questões ambientais; d) Advogar parcerias para garantir que todas as nações e povos desfrutem um futuro mais seguro e mais próspero”. O Dia Mundial do Meio Ambiente foi estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1972, marcando a abertura da Conferência de Estocolmo sobre Ambiente Humano.

Mas nos últimos 46 anos, enquanto os indicadores humanos melhoraram (a despeito das desigualdades sociais), a situação ambiental na Terra piorou e houve uma aceleração do processo da 6ª extinção em massa das espécies. A perda de biodiversidade é tão grande que o avanço das atividades antrópicas está se transformando em uma força de destruição em massa que provoca um holocausto biológico. O Antropoceno está se transformando na Era do ecocídio, que também pode ser a Era do suicídio, pois sem ECOlogia não há como sustentar a ECOnomia.

Para salvar os seres vivos do Planeta, o biólogo e entomologista americano, Edward Osborne Wilson (1929 – ) propõe um plano denominado “Half-Earth”, para reservar metade da superfície da Terra à natureza. Ele lançou o livro “Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life” onde argumenta que a situação que enfrentamos é grande demais para ser resolvida aos poucos e propõe uma solução compatível com a magnitude do problema: dedicar metade da superfície da Terra à natureza.

Para o premiado pesquisador Edward O. Wilson, a atual taxa de perda de biodiversidade que paira sobre a Terra, ameaça erradicar virtualmente todos os animais e plantas selvagens. Ele diz: “Estamos extinguindo a biodiversidade da Terra como se as espécies do mundo natural não fossem melhores do que as ervas daninhas e os insetos da cozinha. Não temos vergonha?”

A resposta costuma ser evasiva e dúbia. Por um lado, temos o Dia Mundial do Meio Ambiente que este ano, por exemplo, tem como tema um assunto muito importante: “#AcabeComAPoluiçãoPlástica”, que visa chamar a atenção dos governos, setor privado, comunidades e indivíduos para a necessidade de se reduzir a produção e o consumo excessivo de produtos plásticos descartáveis, que contaminam nossos oceanos, prejudicam a vida marinha e afetam a saúde humana.

Mas, a despeito das campanhas de conscientização, o modelo de produção e consumo – voltado para atender os anseios de uma pequena elite altamente consumista, mas também uma massa gigantesca de bilhões de pessoas que necessitam do consumo básico e sonham em mimetizar o consumo dos ricos – continua danificando a saúde dos ecossistemas e destruindo o equilíbrio da comunidade biótica.

A humanidade já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. Além dos artigos de consumo de luxo, os governos e a iniciativa privada constroem barragens, fazendas para a produção de commodities agrícolas e produção de gado, fábricas industriais, escolas, hospitais, resorts de férias, infraestrutura urbana e rural e uma infinidade de empresas que obliteram os habitats preciosos para a vida natural. A humanidade está destruindo os solos, as nascentes de água potável, poluindo os rios, lagos e oceanos, além de usar a atmosfera como depósito de carbono da queima de combustíveis fósseis e do metano da pecuária que transformam o sistema climático da Terra, gerando o aquecimento global, as mudanças climáticas e todas as suas consequências. O resultado é um aumento de mil vezes nas taxas de extinção de espécies.

O processo é tão intenso que a maioria dos cientistas, incluindo Wilson, acredita que agora entramos em uma nova época, definida não por influências naturais, mas por aquelas emanadas pelos seres humanos: o Antropoceno, que avança enquanto a natureza murcha e morre. Acontece que eliminar as espécies a uma taxa que supera nossa capacidade de compreendê-las ou estudá-las, deixa a própria humanidade seriamente comprometida. Há também a questão moral. Por séculos, os humanos têm agredido as espécies pelas mais triviais das razões, como o rinoceronte que está sendo levado à extinção porque seu chifre é valorizado como medicamento tradicional e afrodisíaco.

Todavia, apesar das péssimas condições ecológicas da Terra, o livro “Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life” não é um panfleto pessimista ou fatalista. Desafiando a sabedoria convencional predominante, ele sugere que ainda temos tempo para excluir as atividades antrópicas de metade da Terra e identificar os pontos reais onde a biodiversidade do Planeta ainda pode ser recuperada e regenerada. Com uma profunda compreensão darwiniana da fragilidade do Planeta, Edward Wilson clama, com a urgência que poucos assumem, por uma meta atingível que é dedicar metade da superfície da Terra à natureza e conservar a outra metade que ficaria com a terra dos humanos.

Como escrevi em outro artigo (Alves, 20/12/2017), preservação e conservação são concepções que podem ser equacionados em uma visão holística de sustentabilidade ecocêntrica. Preservação quer dizer proteção integral, ou seja, manter um determinado ecossistema intacto e sem interferência da ação humana (áreas anecúmenas). Conservação significa exploração das riquezas naturais, com avaliação de custos e benefícios, garantindo a sustentabilidade para as atuais e futuras gerações (áreas ecúmenas). Desta forma, é preciso preservar a metade do Planeta e conservar a outra metade.

Desta forma, não dá para continuar com o vício do crescimento populacional e econômico (“Growthism”). Somente o decrescimento demoeconômico pode evitar o colapso do aquecimento global e da 6ª extinção em massa das espécies, preservando a metade do espaço terrestre para as forças vivas da natureza e a outra metade e utilizando a outra metade de maneira responsável e de acordo com os princípios da conservação, da regeneração dos ecossistemas e do equilíbrio homeostático do clima.

José Eustáquio Diniz Alves