Brasil terá monitor mensal do impacto da pecuária no aquecimento global

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Fazenda de gado, no Pará. O estado tem o segundo maior rebanho do país (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

A partir de agora, será possível acompanhar o impacto dos bois brasileiros no clima a cada mês. Esse dado estará disponível para o público pela internet no Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg). O Seeg é uma plataforma on-line com as emissões detalhadas no país. No dia 26 de outubro, ele ganhará uma nova ferramenta: o Monitor Agro. Ele divulgará mensalmente as emissões de gases de efeito estufa da criação de gado bovino. O sistema já entra no ar com as estimativas desde 1997 até agosto de 2016. O Monitor Agro será abastecido pelos dados fornecidos mensalmente pelos frigoríficos em todo o Brasil.

 

O Monitor Agro é importante porque a pecuária é a atividade econômica responsável pela maior parte das emissões do Brasil. E é também nossa maior oportunidade para reduzir nosso impacto no aquecimento global. A pecuária contribuiu para as emissões de duas formas. A maior delas é pelo desmatamento. Cerca de 60% das áreas desmatadas na Amazônia viraram pastagens, segundo a Embrapa.A segunda contribuição da pecuária é na própria criação de gado, depois que a terra foi aberta. Esta será acompanhada pelo Monitor Agro. Ele vai contar o que o gado emite de duas formas: pelo pum dos bois (resultado da fermentação da ruminação) e pela decomposição do estrume. O pum dos bois é gás metano. E a decomposição do estrume é um mix de metano e óxido nitroso. Ambos fazem parte do conjunto de gases responsáveis por prender o calor do sol na atmosfera da Terra e aquecer o planeta.

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“Para ter uma ideia do impacto da criação de gado no clima, cerca de 65% das emissões de todo o setor agropecuário do Brasil vêm só dos bois”, diz Marina Piatto, coordenadora de clima e cadeia da pecuária do Imaflora e responsável pelo Monitor Agro. “Nossa intenção é aumentar a consciência das pessoas para o impacto do gado e do consumo de carne. Os brasileiros não fizeram ainda a relação entre a carne que compram no supermercado e os efeitos ambientais da produção”, afirma. Segundo Marina, o objetivo não é fazer uma campanha contra o consumo de carne, mas também levantar discussões sobre como a pecuária pode reduzir suas emissões.

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No caso das emissões provenientes do desmatamento, a solução é mais clara. Basta parar de abrir novas áreas de pastagens à custa da floresta. Isso é possível quando se considera que já existe na Amazônia o equivalente aos três estados do Sul do Brasil em áreas já desmatadas e abandonadas. Segundo um levantamento recente de Paulo Barreto, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia, cerca de 1 bilhão de árvores foram derrubadas na região para abrir pastos hoje abandonados. Para interromper os novos desmatamentos, será preciso aumentar a concentração de cabeças de gado nos hectares de pasto já existentes. Isso envolve investimento em técnicas de produção. E essas técnicas também reduzem as emissões da própria criação: do pum e das fezes dos bois.

É o que explica Marina Piatto. Segundo ela, uma das opções é fazer a rotação de cultivos para melhorar as pastagens. “O fazendeiro pode alternar o cultivo da pastagem com plantação de milho ou de eucalipto. Essas plantas tiram carbono da atmosfera quando crescem. Esse carbono retirado da atmosfera pode compensar totalmente o que foi emitido pelos bois, segundo estimativas da Embrapa”, diz Marina. Mesmo que o milho seja colhido e o eucalipto cortado, o carbono estocado nas raízes das plantas fica imobilizado sob o solo. “Ele fica lá para sempre. Vai acumulando sob o solo”, explica ela.

Também é possível reduzir a emissão de gases do pum e das fezes do gado mudando sua alimentação. “Se o capim é de melhor qualidade, com folhas mais novas, e se o gado recebe suplementação alimentar adequada, ele consegue converter melhor o que come em carne e emite menos gases”, diz Marina. “Isso também aumenta a produtividade. É bom para o pecuarista.”

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Hoje, um pecuarista típico na Amazônia derruba a floresta, queima o que restou da mata, planta capim e deixa o gado solto por alguns anos até esgotar o solo. Depois abandona aquela terra e parte para um novo desmatamento. Isso muitas vezes ocorre em terras públicas invadidas. Com melhores técnicas de manejo, segundo Marina, é possível aumentar a concentração de bois por hectare. “A maior parte das fazendas na Amazônia tem 1 ou 1,5 cabeça de gado por hectare. Com essas técnicas, dá para aumentar para duas a três cabeças de gado”, diz Marina. Isso também reduz a necessidade de abrir novas áreas.

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O Seeg divulgará as novas estimativas de emissões do Brasil nos dias 25 e 26 de outubro, na Fundação Getulio Vargas (em São Paulo) e no Museu do Amanhã (no Rio de Janeiro).

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FONTE: epoca.globo.com