Morte de capivaras em cativeiro em BH vira caso de polícia

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A Polícia Civil irá investigar a morte das capivaras que foram capturadas pela prefeitura e são mantidas em cativeiro, após integrantes do Movimento Mineiro pelos Direitos dos Animais (MMDA) formalizarem o caso na delegacia. Foi aberto um procedimento investigativo pela delegada Andreia Poshmann da Divisão Especializada de Proteção ao Meio Ambiente, que irá intimar a solicitante da denúncia, emitir uma ordem de serviço para que uma equipe de policiais visite o local onde as capivaras estão encarceradas, além de solicitar a perícia para apurar as causas das mores e também pedir informações à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Fundação Zoo-botânica e Ibama.

Desde setembro do ano passado, quando começou a retirada das capivaras que vivem no entorno da lagoa da Pampulha, 52 animais foram capturados, mas somente, 30 deles teriam sobrevivido no cativeiro, onde aguardam ainda os procedimentos prometidos para o controle destes animais. A prefeitura diz que as mortes aconteceram em função de várias capivaras já terem sido capturadas debilitadas, mas integrantes MMDA contestam as justificativas e tentam, desde o ano passado, o agendamento de uma visita técnica ao local.

“A captura das capivaras não previu a esterilização destes animais como instrumento eficaz para interromper a sua procriação e também como prevenção da febre maculosa. Esses animais são extremamente frágeis e não estão acostumados a ficar presos. Em dezembro houve uma seca muito intensa e esses animais ficaram sem acesso à lagoa da Pampulha. Estamos falando de animais semi-aquáticos, então a nossa preocupação aumentou ainda mais”, explica a integrante do MMDA, Adriana Araújo.

Ainda conforme o movimento, a esterilização é importante porque só retirar os animais da lagoa não resolveria o problema, uma vez que novos grupos de capivaras podem chegar ao local e continuar procriando ali. “O consenso entre os técnicos é que as capivaras sejam esterilizadas e microchipadas. Pela falta da sinalização em se fazer isso, estamos requirindo em caráter de urgência à prefeitura a visita técnica de 22 profissionais, entre biólogos e veterinários, uma visita ao local”, conta.

 

 

Houve uma representação por parte do movimento no dia 23 de janeiro, ao qual o Ministério Público de Minas Gerais recomendou à prefeitura da capital que as visitas fossem liberadas em, no máximo, 15 dias. Passado mais de um mês, o MMDA fez nova solicitação, ao qual não houve resposta, segundo Adriana.

“Diante disso e sabendo, neste meio tempo, das mortes dos animais no local, entramos em contato com a prefeitura e o Ibama comunicando que iríamos fazer essa visita no dia 6 de março. No entanto, ontem (5), eu recebi uma ligação da Secretaria de Meio Ambiente nos informando que não estávamos autorizados a fazer essa visita”, relata a ativista.

Como resposta, ela recebeu da secretaria que não poderia fazer a visita porque precisaria haver uma preparação técnica da equipe para recebê-los. “Mas desde o dia 23 de janeiro eles estavam sabendo disso, porque precisa de preparação ainda? É isso que queremos saber. Fizemos um boletim de ocorrência nesta sexta junto a Polícia Militar de Meio Ambiente e a Polícia Civil, pedindo escolta para fazer essa visita”, diz.

Em resposta a reportagem, a assessoria de comunicação da prefeitura informou que a visita foi marcada pela Adriana, que acompanhou todas as reuniões sobre o assunto, e que a prefeitura está agindo conforme o programado. O fato de que os animais poderiam ficar estressados com a visita dos técnicos também foi uma das justificativas da assessoria.

A prefeitura também informou que não se opõe à visita, mas pede para que seja informada com pelo menos cinco dias de antecedência e para que os nomes de todos os técnicos que irão acompanhar a ativista na visita, assim como suas respectivas profissões e formações.

 

Possível causa da morte

O médico veterinário Tarcísio Antônio Rego de Paula, professor do Departamento da Universidade Federal de Viçosa e o responsável pela implementação da esterelização como método de controle da população de capivaras em Viçosa, conta que é provável que a morte dos animais em cativeiro tenha sido causada por estresse.

Ele explica: “Certamente as mortes foram desencadeadas por estresse, que abaixa a resistência do animal e o leva a desenvolver doenças. O animal silvestre capturado na natureza tem como fator natural o estresse, que é bom até certo ponto, porque previne e protege esses animais em situações imediatas. Mas a longo prazo, isso vai causando uma série de danos fisiológicos no corpo do animal. Isso porque em situações de estresse, o animal produz uma espécie de anti-inflamatório chamado cortisol em pequena quantidade, quando ele está em liberdade. Mas quando ele está em cativeiro, uma situação prolongada de estresse, isso é produzido em excesso no seu organismo. É como se o anti-inflamatório tivesse sendo aplicado nas capivaras o tempo todo, e isso faz com que ele desenvolva doenças que em condições normais, ou seja, na natureza, ele não desenvolveria”.

 

Experiência

Em Viçosa, a esterilização dos animais serviu para o número de capivaras no local cair 30% por ano e, por isso, o veterinário Tarcísio de Paula foi chamado para apresentar a experiência na capital mineira mas, até então, não houve nenhuma sinalização de que o procedimento seria efetivado em relação as capivaras da Pampulha. Apenas o primeiro passo foi dado: a captura dos animais.

“O ambiente da lagoa da Pampulha é um ambiente criado pelo homem, ele não é natural. O que aconteceu foi que nós criamos as condições para que estes animais entrassem ali, onde antes eles não existiam. Esterilizar os animais não significa que um desequilíbrio ambiental irá acontecer, pelo contrário. Os animais irão morrer de causas naturais à medida em que vão envelhecendo e novos animais não irão nascer, por causa da esterilização. Com isso, outras animais e outras espécies irão migrar para o entorno da lagoa, já que as capivaras são animais territorialistas e impedem essa migração natural”, explica.

 

“A pergunta que não quer calar: o que está por detrás do interesse da PBH em retirar as capivaras da Lagoa da Pampulha?”, indaga o grupo Direitos Animais, em sua página no Facebook. Saiba mais clicando AQUI.