Matas + preservação - $ = H20

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Neste momento muitos políticos discutem a viabilidade real de implementar obras homéricas e dispendiosas para dar conta de resolver o problema da crise de água nas grandes cidades brasileiras. Em São Paulo, por exemplo, as possibilidades vão desde a construção de mais reservatórios para aumentar a capacidade do Sistema Cantareira até a dessalinização (!) da água do mar do litoral paulista para encher mananciais, passando pela transposiçãodo rio Paraíba do Sul para abastecer cidades paulistas.

Ninguém, entretanto, tocou em um assunto que é o básico do básico, mas importantíssimo: proteger e conservar matas nativas e ciliares nas proximidades das bacias hidrográficas e reflorestar regiões onde elas já foram devastadas.

Sim, porque a natureza é quem dita as regras: quando está preservada a vegetação nativa é garantia de água perene, mesmo em longas estiagens como as que estamos vivendo. O verde fornece a umidade que evapora e se transforma em chuva. De quebra afasta o perigo do assoreamento de mananciais protegendo nascentes, córregos, rios e lagos.

Semana passada a ONG The Nature Conservancy (TNC) publicou um extenso e minucioso relatório chamado de “Mapa dos Recursos Hídricos Urbanos” (Urban Water Footprint, em inglês) provando justamente o princípio de que proteger a natureza traz mais água para as cidades. Constata ele que investir na conservação das matas nativas, além de muito mais barato, é mais eficiente e beneficia as comunidades locais e a vida selvagem.

Elaborado em parceria com o C40 – grupo formado por prefeitos de 40 das maiores cidades do planeta, incluindo São Paulo e Rio – e com a Associação Internacional de Água, o documento faz recomendações sobre como revitalizar os recursos hídricos e melhorar a qualidade da água.

Entre outros pontos o estudo mostra que uma em cada quatro cidades de qualquer parte do mundo teria retorno financeiro maior do que aquele gasto na conservação de nascentes.

Diz mais: “A conservação de bacias hidrográficas economiza dinheiro para os serviços de utilidade pública de outras maneiras também. Por exemplo, investir nas estratégias de conservação poderia reduzir as despesas de capital do tempo dos serviços de utilidade pública, uma vez que as cidades poderiam continuar usando tecnologias mais baratas de tratamento da água ao invés de recorrer a tecnologias cada vez mais caras. A conservação de bacias hidrográficas também gera valor para as cidades além do tratamento da água, incluindo recreação, desenvolvimento econômico e biodiversidade”.

Voltando ao Brasil – e à região Sudeste, a mais afetada pela estiagem – a Fundação SOS Mata Atlântica revelou que só na bacia hidrográfica que alimenta a região onde estão os seis reservatórios do quase seco Sistema Cantareira restam só 21,5% de matas nativas. Nos cinco mil quilômetros de rios que compõem essa bacia apenas 23,5% ainda têm vegetação nativa. Em76,5% deles não há mais matas ciliares, aquelas que protegem suas margens.

Mais: a SOS Mata Atlântica detectou que Minas Gerais continua sendo o estado que mais devasta a Mata Atlântica. E é lá que estão as principais nascentes que abastecem os reservatórios do Cantareira.

Enquanto isso as soluções cogitadas aqui no Brasil passam apenas pela construção de mais reservatórios. Para isso, mais matas nativas precisarão ser derrubadas, como sempre.